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Dia Mundial da Alimentação



Comer é um ato político!

Isto se torna claro quando começamos a enxergar as nossas ações cotidianas com consciência política, pois estas afetam todas as relações humanas. Não ensinamos sobre alimentos nas escolas apesar de ser o que mais fazemos ao longo do dia: comer. Desta forma, criamos consumidores e não pessoas autônomas para manutenção da própria saúde e bem-estar do corpo. Sem educação alimentar não há soberania.


A fome e a desnutrição afetam diretamente o bem-estar das pessoas, sua capacidade de aprendizado, sua saúde e produtividade. A insegurança alimentar causa desigualdade social, violência e afeta toda população direta ou indiretamente. Há quem vá dizer que sem o agronegócio a população passaria mais fome ainda. Entretanto, sabemos que 21 bilhões de animais para abate consomem mais da metade dos grãos produzidos no mundo o que tiraria 870 milhões de pessoas da fome. A pecuária consume 1/3 da água do planeta enquanto 4 milhões de pessoas não tem acesso à água potável. O veganismo também luta pelas desigualdades sociais.


A democratização das terras possibilita que a matriz agroecológica possa de fato influenciar no rumo do desenvolvimento do país. Segundo o dossiê do Tricontinental (Dossiê 27: Reforma Agrária Popular e a luta pela terra no Brasil), a alta concentração de terra traz "consequências políticas, econômicas, sociais e ambientais na construção histórica do Brasil". "Afinal, as relações com a terra são fundamentais para o desenvolvimento de um país. Quando se fala de terra se fala de pessoas, de controle dos bens naturais, de desenvolvimento econômico, social e cultural. A terra é a expressão de uma sociedade”.



O que é comida de verdade?

Vamos do começo: a comida de verdade considera a cultura de um povo o que é contrário aos sistemas modernos de monocultura. Ela não tem veneno, é fresca, local e variada. Ela é produzida em sistemas agroalimentares familiares e orgânicos que cultivam alimentos saudáveis para todes: produtores, consumidores, animais, plantas e o planeta.


O agronegócio não produz comida de verdade, produz commodities. Quem produz comida de verdade no Brasil são indígenas, quilombolas, ribeirinhes, extrativistas, assentades, agrofloresteires, campesines e agricultoras familiares. Comida com segurança alimentar e nutricional e conservação ambiental – tudo ao mesmo tempo. Esses produtores guardam suas sementes e produzem seus insumos agrícolas sem dependência de empresas estrangeiras e cultivam cerca de 70% do que comemos com apenas 25% do orçamento destinado à agricultura no país.


A desigualdade e a falta de incentivo não tem fim nem em meio a pandemia da COVID-19, com o veto do presidente à PL 735/2020 que garantiria assistência financeira aos agricultores familiares. Para que essas pessoas continuem a produzir alimentos seguros e a preços justos é necessário que o Estado promova a democratização da terra, a distribuição justa de subsídios econômicos além de qualidade de vida e bem estar, educação, saúde e cultura. Desta forma ganhamos independência e soberania alimentar como nação. Passamos a ser donos das sementes e florestas, da água e das ervas medicinais, da flora e da fauna e criamos nosso patrimônio alimentar e cultural.




Estamos em épocas de eleições municipais o que também afeta o DF indiretamente, pois no entorno é onde estão assentados a maioria dos pequenos produtores que nos abastecem. É essencial eleger representantes que estejam dispostos a promover condições de acesso a comida de verdade.


Acesso que se dá desde a uma boa alimentação e educação alimentar nas escolas, garantindo acesso à segurança alimentar a população desde a infância. Até o incentivo, subsídios, condições para que os pequenos produtores que cuidam da terra e do meio ambiente se desenvolvam de forma justa. De acordo com o último Censo Agropecuário do país, realizado em 2017, cerca de apenas 1% dos proprietários de terra controlam quase 50% da área rural do país.

"O tema da Reforma Agrária Popular, diferente daquilo que nós chamamos de Reforma Agrária clássica, não é apenas um processo de distribuição de terras, ela tem como fundamento a mudança na matriz tecnológica da produção, que tem como base a agroecologia e a cooperação dentro de um projeto de alimentos saudáveis e de proteção ao meio ambiente para o conjunto da sociedade", destaca Gringo (Dossiê 27).


"O Brasil é um dos países com maior concentração de terras do mundo e onde estão os maiores latifúndios. Concentração e improdutividade possuem raízes históricas que estabeleceu a base da desigualdade social do país que perdura até os dias atuais" – Dossiê 27, que também traz dados de que os índices de concentração de terra estão cada vez maiores.

Por fim, em uma sociedade voltada para o consumo, nossas escolhas do cotidiano influenciam diretamente no mundo em que queremos construir. Entretanto, essas escolhas muitas vezes são feitas pela disponibilidade de tempo que temos: um mísero horário de almoço, tempo restrito às gondolas de supermercado, desconhecendo nossas raízes alimentares e sendo privados do acesso à saúde que a comida de verdade nos proporciona.

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